quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Eutanasia

Tomei a decisão mais difícil da minha vida. Levei a Pitchula para ser eutanasiada. Demorei para decidir, sofri muito para chegar a isso. Chorei demais, muito mesmo, mas quando eu vi que nem água ela estava conseguindo beber não achei justo mantê-la  e deixá-la sofrendo; morrendo de inanição e asfixia. Do domingo para segunda feira a respiração dela estava muito ruim, mal conseguia respirar. Durante a noite tossiu muito, teve diarréia. Não comeu nada. A noite, quando cheguei, nem na água tinha mexido. Era complicado para tomar os remédios.
Por outro lado, ela estava bem, fez festinha comigo, com minha irmã, com Elisa e com o "homem que me sorri com olhos". Parecia bem, passeou. Cada vez que eu pensava em tomar uma decisão, ela se mostrava bem. Terrível isso, parece que a gente é que está agourando.
Bom, ontem pensei bem e depois da noite insone e depois de ver que nem água ela conseguia beber, decidi. Cheguei em casa depois do almoço, dei o remédio de dor para ela, liguei para o "homem que me sorri...". E ele veio nos pegar e levar para a HOVET-USP. Eu podia ir sozinha, mas tive medo de não conseguir, ele foi ótimo, deu todo apoio que eu precisava. Ele tinha esperança que ela melhorasse. 
Quando chegamos no Hospital, a Drª Vera veio ao meu encontro e não fez muita pergunta, disse que estava esperando que eu me decidisse, mas que a partir do momento que a Odonto disse que não tinha jeito, já sabia que era isso que tinha que ser feito.
Nos levou até uma sala diferenciada das outras. Acolhedora,  com uma cor diferente, com um altar e varias fotos e cartinhas em um mural. Colocamos a Pitchula na maca, o Milton, o enfermeiro colocou o soro nela, ela ficou quietinha, e a médica aplicou o anestésico, ela adormeceu, imediatamente, com a cabeça nas minhas mãos,  não sei se aí ela já tinha ido, pois não apresentava mais nenhum movimento, depois aplicou o Tiopental. E acabou. Ela foi embora. Chorei muito, mas um choro diferente, já não era aquele desespero, era saudade já. 
A média abriu a boca dela para vermos o tamanho do tumor, pois até naquela hora não tínhamos visto direito. Estava enorme. Quase fechando a garganta, tinha uma passagem tão pequena, que não daria mesmo para passar alimentos. Um grão de ração era enorme para o espaço, sem falar que qualquer coisa deveria machucar muito. 
Eu tinha conversado com a Ceila, minha colega de trabalho, que teve que fazer isso recentemente e ela tinha me dito que depois sentiu um grande alivio. eu não acreditei que poderia sentir isso, mas agora eu falo que estou me sentindo aliviada, alivio por que se não tivesse tomado esse caminho a Pitchula ia sofrer muito, pois com certeza ela morreria por obstrução das vias respiratórias. Já pensou se ela morre sozinha enquanto eu trabalhava? Eu não me perdoaria. Acho que era esse o meu desespero, não poder ficar direto com ela. Não poder aliviar a situação. Não poder proteger ela disso tudo. Mas eu pude proteger dessa dor maior, morreu tranqüila, dormindo, sem aquele pavor de dor.
Quando acabou e eu olhei para meu acompanhante, ele estava com o rosto molhado pelas lágrimas. Me surpreendeu. 
Voltar para casa foi difícil. A casa esta vazia. Eu estou só, sem minha companheira de todas as horas. Eu estou me sentindo orfã.

5 comentários:

  1. Eu nem tenho o que falar.
    Esse ano fez 4 que a minha foi embora, não precisamos passar por essa sua decisão.
    Pelo nome do seu blog dá pra tentar imaginar o que você está sentindo. Vou ficar daqui torcendo por você.
    Bjs

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  2. Querida

    Imagino também o que você sentiu e está sentindo. Nunca tive que passar por isso, meus cachorros morreram por causas naturais, velhice mesmo, mas uma vez precisei amputar parte da pata do meu rotweiller Urso, por causa de um tumor, e já foi super doloroso. E depois ainda ele teve que tomar quimio por um tempo, foi um sofrimento, imagino o que você passou. Mas embora difícil foi a decisão mais carinhosa e acertada Silvia, pode acreditar. Foi o seu ultimo ato de amor com a Pitchula.
    Life is bittersweet, como falam aqui. A vida é agridoce, tudo misturado, o doce e o amargo. E só nos resta viver, continuar remando o barco. Fique com Deus e meu abraço carinhoso, mesmo a distância. Beijos

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  3. Fiquei arrepiada !!!
    Pode contar comigo !
    Bju doce mel!

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  4. Decisão difícil, mas a mais justa com ela Silvia.
    Tenha força.
    Beijos
    Lu

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  5. Meninas,

    Muito obrigada pelo carinho, força, apoio.

    Bjssss

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